quarta-feira, 9 de maio de 2012

MÃE


IARA DA SILVA MACHADO

Não nasci ainda; aprovisionem-me com água que me embale, ervas que brotem para mim, árvores que conversem comigo, céu que cante para mim, pássaros e uma luz branca no fundo da minha mente para me guiar.
Louis MacNeice, Prayer Before Birth

Na Grécia antiga Deméter era a Deusa Mãe proeminente e tinha a função especializada de presidir sobre todas as formas de reprodução e renovação da vida, especialmente da vida vegetal. Figura complexa e bem elaborada, historicamente ela se situa entre os antigos cultos neolíticos da Grande Mãe – que floresceram na Suméria, na Ásia Menor, no Egito e na ilha de Creta entre aproximadamente 4000 e 1000 a.C – e a era cristã no Ocidente, preservando muitas das características desses cultos anteriores; ela é a deusa da fecundidade, da fertilidade e da regeneração; possui uma identidade mística com sua irmã sombria do mundo avernal, a Rainha dos Mortos; dá a luz um Filho Divino, que permanece como seu jovem consorte em vez de transformar-se em marido ou em alguém de igual maturidade.
O símbolo principal de Deméter era o feixe de trigo e em seus mistérios em Elêusis, uma única espiga de milho. Os simbolismos da flor, do fruto e da semente, que a transforma, verdadeiramente em Nossa Senhora das Plantas. Seu animal sagrado terrestre era o porco, que costumava ser um sacrifício de fertilidade em todo o mundo por causa de seus múltiplos úteros; seu animal sagrado marinho era o golfinho.
O santuário de Deméter em Elêusis, onde seus mistérios eram celebrados, permaneceu ativo durante quase dois mil anos.
Deméter era a Grande Mãe e o mundo inteiro era a sua Criança. O evento essencial nas religiões agrárias era o Matrimônio Sagrado, no qual a sacerdotisa periodicamente entrava em comunhão com o reino dos espíritos no interior da terra para renovar o ano agrícola e a vida civilizada que florescia sobre a terra. Seu consorte era um espírito vegetativo, ao mesmo tempo o seu filho que brotara da terra e o parceiro que iria raptá-la para outro reino, um reino que seria fecundado quando ele, ao morrer, a possuísse. A solução final para a perda de Deméter era tornar sadio o universo no qual a morte se introduzira admitindo-se também a possibilidade de um retorno à vida. O renascimento após a morte era o segredo de Elêusis. No Hades, Perséfone, como a própria terra, toma uma semente em seu corpo e desse modo retorna eternamente a sua extática mãe com o seu novo filho – apenas para morrer eternamente em seu abraço fecundante.
Quando falamos de Deméter conforme era imaginada pelos gregos, deveríamos na realidade falar de duas deusas, não uma. O cerne do mito e do culto a Deméter, era o fato de ela ter perdido sua filha adorada, Coré (significando “donzela” em grego), pranteada por ela, e por fim, reunindo-se novamente a ela. Todas as imagens e pinturas em vasos que chegaram até nossos dias mostram duas mulheres maduras: Deméter e Coré juntas, segurando feixes ou espigas de trigo, flores ou archotes. A intimidade entre mãe e filha ressalta o caráter profundamente feminino dessa religião e constelação mitológica.
Embora Deméter não seja em rigor uma Mãe Terra, pois este título pertence a sua avó, Gaia ou Ge, cujo nome significa “terra”, o seu mito e culto dizem respeito ao que acontece em cima e embaixo da terra. Ela e a filha simbolizam os ciclos dinâmicos da natureza que ocorrem no interior do corpo da terra e, em decorrência do princípio místico de correspondência, também no interior do corpo de toda mulher. (Woolger, Jennifer; Woolger, Roger J. - A Deusa Interior, 2007).
Fazer uma alusão ao mito grego de Deméter é uma forma de perceber como na sociedade pós moderna a relação mãe e filho(a) em níveis saudáveis de manifestação reflete essa cumplicidade amorosa e a intimidade do reconhecimento do divino apresentado a mulher através da face do exercício da maternidade.
Parabenizo a todas as MÃES que foram, que são, que virão a Ser.
Em especial AGRADEÇO a minha mãe Eliete que teve a coragem moral e afetiva de disponibilizar seu ventre oito vezes para gerar crianças e co-criar com DEUS!

domingo, 22 de abril de 2012

A ENERGIA DA MÁGOA NAS RELAÇÕES SOCIAIS


Iara da Silva Machado

O aprendizado da capacidade amorosa é o nosso reconhecimento da ignorância sobre essa virtude grandiosa.

A maior parte das criaturas se comporta como se o amor não fosse um sentimento a ser cada vez mais aprendido e compreendido. Agem como se ele estivesse inerte na intimidade humana e passam a viver na expectativa de que um dia alguém ou alguma coisa possa despertá-lo em toda a sua potência, numa espécie de fenômeno encantado.

A amorosidade manifesta se torna fonte inesgotável de doação, por isso, se diz que aquele que ama sempre tem algo para ofertar.

Confundimos na qualidade de aprendizes a energia do amor com outras formas de atração e paixão, chegando muitas vezes a negar o fracasso amoroso, durante anos e anos, para não admitir diante dos outros nossas escolhas precipitadas e equivocadas.

Não percebemos, muitas vezes, oportunidades imensas de caminhar pelas veredas do amor, porque não renunciamos a necessidade neurótica de ser perfeitos, ficando preso a uma pressão torturante de infalibilidade.

Perdemos excelentes momentos de crescimento pessoal, queixando-nos cotidianamente de que estamos sendo ignorados e usados, porém sem tomar atitude alguma. Deixamo-nos magoar pelos outros e acabamos magoando também a nós mesmos. Reagimos as ofensas ou indiferença, experimentando sentimentos de frustração, negação, autopiedade, raiva e imensa mágoa. Culpamos as pessoas pelos nossos sofrimentos, verbalizando as mais diversas condenações, e em seguida, esforçamo-nos exaustivamente para não ver que a origem de nossas dores morais é fruto de nossa negligência e comodismo.

Nós nos “barateamos” quando colocamos nossa autovalorização em baixa na espera de seduzir e modificar seres humanos que nos interessam.

Vivemos comumente desencontros na área da afetividade, por desconhecermos os processos psicológicos que nos envolvem, o que nos faz viver supostos amores.

A paixão, que muitos chamam de amor, raramente atravessa seu estágio embrionário. Aos poucos, perde a força motivadora por não possuir raízes profundas nos verdadeiros sentimentos da alma.

Quando a desilusão desfaz a paixão é porque desgastou-se o estado de irrealidade. Paixões acontecem quando usamos nossas emoções sem ligá-las aos nossos sentidos mais profundos.

Quase sempre acreditamos que o fracasso conjugal é um antônimo do sucesso matrimonial, esquecendo-nos, contudo, de que o êxito, em muitas circunstâncias, está do outro lado do que denominamos ruína afetiva.

Aprendemos quem somos e como agimos convivendo com os defeitos e qualidades dos outros. É justamente nos conflitos de relacionamentos que retiramos as grandes lições para identificar as origens de nossas aflições.

É profundamente irracional nutrir a crença de que nunca seremos desapontados e de que sempre seremos amados e entendidos plenamente por todos.

Portanto, é importante admitir a mágoa, quando ela realmente existir, para que possamos resolver nossos conflitos comportamentais.

A maneira decisiva de atingirmos o equilíbrio interior é aceitarmos nossas emoções e sentimentos como realmente eles se apresentam, pois, deixando de ignorá-los passaremos a nos adaptar firmemente à realidade dos fatos e dos acontecimentos que estamos vivenciando.

O que não pode ser visto não pode ser mudado. Os mecanismos inconscientes dos quais nos utilizamos para nos enganar são em grande parte imperceptíveis, principalmente aqueles que não iniciaram ainda a autodescoberta do mundo interior, através do autoaprimoramento espiritual.

Mágoa não elaborada se volta contra o interior da criatura, alojando-se em determinado órgão, desvitalizando-o. Mágoa se transforma com o tempo em rancor, exterminando gradativamente nosso interesse pela vida e desajustando-nos quanto a seu significado maior.

Sentimentos não morrem; poderemos enterrá-los, mas mesmo assim continuarão conosco. Se não forem admitidos, não serão compreendidos e, consequentemente, estarão desvirtuando a nossa visão do óbvio e do mundo objetivo.

A mágoa nas relações sociais do âmbito familiar ao trabalho, da vida na comunidade a ação religiosa, em todas as esferas de ação do homem e da mulher pode ser vista e entendida como uma mensageira da possibilidade de curar pontos cegos das convivências e possibilitar o reencontro de almas para uma vida mais leve na alegria de viver e na gratidão da existência.

Adaptado do livro As dores da alma. Francisco Neto, HAMMED, 1998